domingo, 31 de outubro de 2010

Maastricht e uma livraria "especial"

Sim, não cumpri o prometido aqui no blogue que era falar sobre o modelo Jenaplein. Mas isso deve-se ao simples facto de ter andando muito ocupada com as leituras do mestrado e a preparação das etapas seguintes da investigação. Pelo meio, tive que estudar também neerlandês... No meio de tanta coisa, fui passar o fim-de-semana a Maastricht com o Alexandre e visitar a Deborah que já não a via desde o verão de 2008 em Utrecht. Foi tudo muito bom e estou muito contente!
Nunca tinha visitado Maastricht e estava curiosa porque tinham-me dito que era a cidade menos holandesa por se localizar bem a sul do país, muito perto da Bélgica e da Alemanha, e por se verificar influências destes dois países nessa região do Limburgo. E de facto, não senti que estivesse na Holanda...poucas bicicletas em relação as que existem noutras cidades holandesas, pouco chão de tijolo e muito francês pelo meio. No entanto, gostei da cidade e achei-a bonita. Para quem gosta de compras é então muito boa porque tem imensas lojas concentradas no centro da cidade, do lado de lá do rio. O rio é grande, tem um largo caudal e dá um toque especial à cidade. 


















Mais o mais bonito e impressionante que vi foi a famosa livraria Selexyz Dominicanen, denomiada internacionalmente como uma das mais bonitas do mundo (ver: http://www.guardian.co.uk/books/2008/jan/11/bestukbookshops  A nossa livraria Lello também está incluída :)).  Aconteceu vê-la por acaso; vimos mais uma igreja e decidimos entrar e ... uao, que surpresa! Uma livraria dentro de uma antiga igreja do século XIII!





 Vamos tomar um café e conversar... no altar, obviamente.


No centro de Zwolle há também uma antiga igreja transformada em discoteca. Quando lá entrei, em 2005, fiquei literalmente de boca aberta quando vi pessoas a dançar em cima do altar e o DJ no púlpito. É preciso ter coragem mas ainda bem que a há. Entre uma discoteca e uma livraria numa antiga igreja, prefiro, claro está, a livraria. E esta é linda.

O fim-de-semana foi muito bom e vai ficar na minha memória. Para completar este sonho digo para mim que amanhã já volto à "minha escola". 

domingo, 24 de outubro de 2010

Bom dia, Portugal!

Que bom hoje ser domingo! Sinto-me sempre mais nova e mais revigorada!
A semana correu muito bem e sinto-me completamente em casa e aquela escola é a minha escola também. Tenho agora na próxima semana uns bons oito dias de férias - as Férias do Outono. Todas as escolas do país têm uma semana livre, de acordo com as regiões onde vivem. Para esta região, as Férias do Outono começam na segunda-feira mas, por exemplo, nalgumas regiões mais a sul, as férias foram na semana passada. Na sexta-feira já se sentia a alegria pela chegada desta pausa. Estava tudo mais calmo, a passo menos apressado... também às sextas-feiras as crianças mais novas, penso que até aos oito anos, não têm escola da parte de tarde e isto é válido para todas as escolas do país. Por isso, na sexta-feira de tarde senti a escola meia vazia. E o tempo lá fora estava tão bom que mais me apetecia sair e ir passear. Mas valeu a pena ter ficado. Mais uma vez, vi actividades diferentes que nunca tive oportunidade de ver em Portugal. Mas sobre isso irei falar melhor esta semana. Tenciono explicar melhor esta metodologia e o que tenho visto a ser feito nesta escola. Quem estiver interessado em ver algumas fotografias da escola e tentar perceber um pouco melhor como ela está organizada, pode abrir este link (em neerlandês):

http://www.jenapleinschool.nl/website/images/stories/bestanden/schoolgidswijzer0708/schoolgids_0708.pdf

Por enquanto, vou planear como vou organizar a minha semana de férias :) Tenho muito que ler e escrever mas às vezes a vontade não é muita. Estar na escola é que me dá mais alento e motivação pois estou verdadeiramente em ambiente de trabalho. Nas pausas para o almoço (após digerir as sandes na companhia dos outros professores), dedico o meu tempo a ler, a pensar e a escrever.Quando chego a casa tenho mais vontade de saber o que se vai passando em Portugal e, infelizmente,não fico com sentimentos bons mas antes antevejo as dificuldades para nós, os portugueses. Resta-me ter esperança.
Felizmente, também vejo por aqui algumas marcas nossas de que muito me orgulho. Esta semana fui à maior livraria da cidade e qual não foi a minha surpresa e satisfação quando encontrei, com facilidade, livros de Pessoa, Saramago e Lobo Antunes traduzidos para neerlandês. Já tinha conhecimento que Lobo Antunes tem muita projecção fora de Portugal. Quando vou a Estrasburgo encontro este autor destacado  nas livrarias e penso que ele recebeu um grande prémio em França. Encontrei as obras dele também aqui. Mas, o que mais me surpreende é o interesse de um nicho holandês pela poesia de Fernando Pessoa. Fiz algumas pesquisas e encontrei muitos sitios em neerlandês sobre a vida e obra de Pessoa, havendo mesmo encontros e entidades dedicadas ao estudo e divulgação de Pessoa na Holanda, nomeadamente em Utrecht. Fico de facto surpreendida. Até porque considero ser muito difícil uma tradução de um poema, quanto mais de Fernando Pessoa e da sua obra. Num sítio da internet, havia mesmo um espaço com as traduções em inglês de diversos tradutores, e nelas se podem ver a ambiguidade e sentidos de interpretação. Em relação às obras de Saramago, encontrei um exemplar na livraria e por dentro do livro, pude ver que existem pelo menos uma meia dúzia de obras dele traduzidas para neerlandês. Não sei se a livraria tinha mais autores portugueses ou de língua portuguesa mas já me orgulho bastante pelo o que os portugueses fizeram e fazem fora do seu país.Para mim são um exemplo. Recordo quando em 2005 um professor da Pabo me ofereceu um cd de fado de Cristina Branco, dizendo-me que ela era muito conhecida na Holanda (e para mim desconhecida em Portugal). A este propósito, coloco este link de um vídeo dela com traduções para neerlandês:



A propósito de neerlandês, ontem fiquei muito contente por ter descoberto um sitio na internet onde posso aprender esta língua através de podcasts. Chama-se "Laura speaks Dutch" e surgiu de um romance entre um holandês e uma norte-americana que, para ensinar à distância a língua e cultura holandesas à namorada, a Laura, o holandês elaborou imensos podcasts em formato de "aulas". Infelizmente, o namoro deles terminou mas ficaram os imensos podcasts acessiveis a toda a gente. Este sitio tem ajudado imensas pessoas um pouco por todo o mundo e eu considero-o muito bem conseguido. Já descarreguei alguns podcasts para ouvir enquanto vou na minha bicicleta :) Quem for curioso ou quiser aprender neerlandês aconselho vivamente a visitar o "Laura speaks Dutch" em http://www.lauraspeaksdutch.info/  Luciana F., deves vivamente visitá-lo e pensar em fazer algo semelhante para Português!

Vou agora aproveitar o bom tempo (temporário, provavelmente) que se faz lá fora, pois ontem o dia esteve muito mau e passei-o à janela :)
Bom domingo a todos e uma excelente semana!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Voa a grande altitude

É este o meu desejo. E assim o desejo para todos.




http://www.youtube.com/watch?v=qJN1heoU4ns&feature=related

"Não fiques na praia, com o barco amarrado,
E medo do mar.
Tudo aqui é miragem, mas na outra margem
Há alguém a esperar.

Como onda que morre, sozinha na praia,
Não fiques brincando.
No mar confiante ensina o teu canto,
de ave Voando.

Voa bem mais alto, livre sem alforge,
sem prata, nem ouro,
Amando este mundo, esta vida que é Campo,
e esconde o Tesouro.


Ninguém te ensinou mas no fundo tu sentes
Asas para voar
Nem que o céu se tolde e as nuvens impeçam
Tu não vai parar.
Há gente vivendo, tranquila e contente
Como eu já vivi.
És águia diferente, céu azul cinzento
Foi feito para ti."


Autor desconhecido



domingo, 17 de outubro de 2010

Cup-a-Soup

Começou o frio. Estou sentada na cama a ler e a escrever enquanto tenho a preparar uma caneca de Cup-a-Soup (para quem não sabe o que é são pacotinhos de sopa instantânea que se bebem muito bem e que obviamente são muito populares aqui). Preciso de aquecer, mesmo após ter tomado uns quatro chás hoje. Não está assim muito frio... mas o aquecimento do quarto-sala-cozinha não está a funcionar.
Faço o balanço da primeira semana aqui. Uma palavra: óptima. Estou mesmo muito contente por estar aqui e de ter a oportunidade de ver outras metodologias de ensino, outras perspectivas, outras pessoas. Sinto-me de facto cheia de sorte. Por tudo o que me acontece, o bom e o menos bom.
Sobre a escola, tenho muitas coisas para dizer, para contar, para partilhar mas ao mesmo tempo não consigo alargar-me muito em palavras. Porque são várias coisas ao mesmo tempo e também quero conhecer tudo devagar, sem pressas e avaliar e repensar cada ponto antes de me pronunciar.  Sou mera espectadora. O meu diário já vai longo em observações e apontamentos. Esta escola é mesmo diferente. As crianças, essas são iguais" às nossas mas mais livres, mais independentes, mais autónomas. Os professores, esses sim são diferentes. Entram de manhã com a cara gelada, nariz vermelho mas um grande sorriso e dizem-me várias vezes: sinto-me muito bem aqui. São felizes. Partilham todos o mesmo mas ao mesmo tempo preservam-se. Para além de viverem o trabalho em grupo com os alunos, também vivem em grupo. São um só. E são muitos os professores desta escola porque muitos trabalham em part-time, isto é, três vezes por semana, dedicando os outros dias aos filhos pequenos ou ao trabalho noutras áreas. Será por isso que têm energia e motivação?

Encanta-me a escola. Os cantos, os espaços, a luz, a organização, os materiais... vou colocando aqui algumas fotos para terem uma ideia. Quem sabe se mais tarde coloco um pequeno vídeo.

 Exemplo de uma sala. À frente do quadro branco está a grande mesa do professor, onde dá apoio individual a alguns alunos enquanto os outros grupos trabalham outras actividades. Há rotatividade.


 Os alunos dos grupos(anos) mais novos, até aos 9 anos, penso eu, não trazem material escolar para a escola. Em cada grupo de mesas, há uma caixa ou copo com lápis, borracha, lápis de cor, etc para o grupo de crianças, pelo que têm que partilhar entre si.

 Espaço do círculo. Normalmente, no início e fins das manhãs e das tardes, as crianças e os professores reúnem-se em círculo, para falar, explicar, conhecer uma actividade, falar do que correu bem e menos bem, etc. É um espaço de exercício de poder. É também utilizado pelo professor para explicar determinadas matérias com um grupo de alunos, enquanto os outros têm actividades diferentes.



 Quase todas as salas têm à porta uma caixa com  material de jardim, ginástica, e outras coisas mais, para as crianças brincarem lá fora.






 Cada piso tem muitas estantes com os manuais escolares que são gratuitos e organizados pelas escolas. Cada criança tem muito material escolar mas que fica na escola. Manuais, livros de exercícios, cadernos, blocos de exercícios, sebentas, etc, são iguais para todos. Surpreende-me a quantidade de jogos e materiais didácticos para o exercício da língua e da matemática.








Vi na quarta-feira muitos pais às portas das salas. Vinham ajudar na leitura. É prática comum na escola alguns pais virem ajudar as crianças a ler. Inscrevem-se numa folha que está à porta das salas e indicam os dias mais convenientes. Normalmente, entre as 8:30 e as 9:00 estão na escola a ajudar antes de irem para o trabalho.




Os corredores são amplos e versáteis para permitir não só o estudo e o trabalho como a brincadeira. Enquanto os pais estavam no corredor (neste caso, do 2º piso), alguns alunos mais velhos, do 3º piso, vinham ajudar alguns alunos mais novos a ler, dentro ou fora das salas.










Bem, tenho o meu cup-a-soup pronto :) Prometo continuar esta história em breve e contar-vos o que se anda a fazer por aqui. Sobre a pedagogia Jenaplan, irei escrever quando me sentir mais preparada. Porque requer uma dose de esforço nos dedos!
Boa semana a todos!

http://www.youtube.com/demannenvancupasoup#p/f/11/w460CwonslI